ACTROS, NO USO PRÁTICO

A despeito das demais mazelas e mesmo com a economia deprimida (e talvez por isso mesmo, pois empresários que merecem ser chamados assim enxergam oportunidade na crise), as montadoras continuam atualizando suas ofertas para oferecer maior rentabilidade e produtividade aos operadores de transporte, oferecendo caminhões no Brasil que se parecem cada vez mais com as verdadeiras espaçonaves que cruzam as Autobans e o espaço Schengen.

Paradoxalmente, enquanto a tecnologia embarcada traz os caminhões a um novo patamar de sofisticação e desempenho, o caminhão em si contribui cada vez menos para o resultado final de um conjunto harmônico onde inteligência e conhecimento incorporados, serviço, conectividade e capacitação profissional do motorista são cada vez mais essenciais. Esse sistema, na verdade, apresenta vários paradoxos, pois a eletrônica embarcada e inteligência incorporada aos sistemas que rodeiam a “nave” levam a novos níveis de complexidade, gerando oportunidades antes apenas vislumbradas. Por exemplo, a eletrônica embarcada que literalmente protege o veículo contra a ação de um motorista ruim, por outro lado converte esse motorista em supervisor de um sistema que, em várias partes do mundo, caminha rápido para a operação autônoma. Esse novo profissional deve conhecer conteúdos e reconhecer situações que há dez anos não seriam parte da vida de um motorista, o que exige dele maior preparo e consciência e muda o paradigma de admissão, capacitação e retenção de RH nas empresas de transporte.O modelo de manutenção também adquire novas configurações, onde o motorista passa ao papel de gestor da máquina e as intervenções devem seguir protocolos rigorosos e ser efetuadas por profissionais cada vez mais preparados e multi-habilitados, para extrair o potencial de valor econômico dos elevados investimentos que essas máquinas trazem.

Na Europa, os modelos Actros são sinônimo de eficiência e segurança através da tecnologia embarcada e não é diferente aqui. Avaliamos o cavalo 2651 6x4 com cabina Megaspace suspensão metálica e câmbio de 12 marchas automatizado, exclusivamente desenvolvido para aplicação no Brasil. Externamente, a flagrante similaridade com os modelos alemães esconde a detalhada adaptação: aerodinâmica desenvolvida para a faixa de velocidade mais comum no País e, levando em consideração as que um caminhão latino-americano está mais exposto a agressões, grupos óticos simplificados e mais robustos, bem como para-choques em plástico deformável, capazes de absorver impactos sem maiores danos. Ainda levando em consideração a diferença de emprego em relação aos seus irmãos europeus, o Actros avaliado foi desenvolvido com uma pegada on-off e tem grande comunal idade de peças com o Axor, para aumentar a disponibilidade e reduzir o custo.

A cabina, com piso plano e pé direito de 1,94m, dispõe de cama larga e confortável, gaveteiros e muito espaço para dar aos motoristas uma verdadeira “casa longe de casa”, importante em países de dimensões continentais como os da nossa região. O posto do motorista é todo Mercedes-Benz, comentário que por si só já diz tudo, mas por dever de ofício devo mencionar a ergonomia e visibilidade perfeitas, inclusive pelos espelhos, e acabamento impecável. Um detalhe que faz toda a diferença: a possibilidade do motorista reconfigurar a botoeira conforme sua preferência pessoal (pois é...os engenheiros nem sempre sabem tudo...). O acesso à cabina se dá por uma escada com anti-derrapante eficaz e com os degraus superiores cobertos pela porta, o que além de melhorar as condições do motorista, também melhora a segurança, nível de ruído e aerodinâmica. Do lado de fora, todos os pontos necessários ao trabalho do motorista estão facilmente acessíveis e seguros e há abundância de porta-objetos, de ambos os lados, inclusive com acesso pelo interior da cabina. O Actros não tem pontos de controle de manutenção na rotina do motorista, todos os sensores (e são vários) estão ligados ao computador de bordo, para indicações de diagnóstico, e também ao Fleetboard, ferramenta de conectividade da Mercedes-Benz que permite monitorar a máquina para otimizar a condução e a manutenção, reduzindo custos operacionais, evitando quebras e aumentando intervalos de manutenção e a disponibilidade.

Já instalados, começamos a programar os recursos e inserir as metas de condução, que podem ser feitos diretamente do veículo ou via conexão Fleetboard, caso em que a empresa informa à Mercedes-Benz os parâmetros a serem monitorados e metas a serem atingidas. A partir daí qualquer anomalia ou desvio dos padrões de condução estabelecidos são comunicados à empresa para providências. A Mercedes-Benz conta com uma escola em Campinas onde os “pilotos” são treinados para usar de modo otimizado todos os recursos dos veículos.

Em marcha, o nível de ruído interfere um pouco na conversação e a rigidez da suspensão metálica a golpes e contragolpes se mostra à altura da tarefa num país onde o pavimento é quase sempre de má condição. Os demais parâmetros observados de conforto (aspereza, rigidez estrutural, passagem por obstáculos) são acima da média, mesmo para veículos top de linha nessa categoria. E não poderíamos deixar de notar, visto que já se tornou um temor cultural no Brasil: o piso da cabina permanece em baixa temperatura independente do regime de funcionamento.

Começamos avaliando o recurso Hill Holder, que impede o Actros de voltar para trás em arrancadas em subida, seguindo uma rampa de aceleração suave e progressiva. Aqui a eletrônica assume, impedindo que uma condução desatenta possa afetar negativamente o consumo e reduzir a vida útil dos componentes do veículo, a rotação se mantem sempre dentro da faixa econômica de torque e a rotação de troca de marchas é ajustada por um inclinômetro instalado no câmbio, que no nosso caso, em um aclive, acontecem em rotação mais alta. Passado o aclive, os freios com atuação eletrônica se mostram suaves e bem proporcionados para controle fino da velocidade. Para um controle mais preciso, usamos o freio-motor Topbrake e o retarder com 5 estágios, obtendo até 1.100cv de potência de frenagem capazes de controlar suavemente as 57ton PBTC do teste.

A “banguela eletrônica” entra em ação quando inexiste demanda de torque entre o câmbio e a tração, reduzindo o arraste e o consumo de combustível. O sistema é desativado automaticamente a qualquer intervenção do motorista sobre os freios, transmissão ou se a meta de velocidade é superada.

Acionado o radar, o Actros segue suavemente à velocidade programada no cruisecontrol até que a distância para o veículo da frente atinja o valor programado. Nesse momento os freios motor e de serviço controlam progressivamente o carro, atingindo mesmo frenagem máxima se uma situação de emergência se configurar. Outro recurso que já remete aos futuros veículos autônomos é o lane assist. Uma câmara de vídeo segue as faixas da sinalização horizontal e aciona sinais sonoros caso o caminhão invada uma faixa lateral sem que a seta esteja acionada. Também fazem parte do pacote de segurança sensores de chuva e acionamento automático das luzes em função da luminosidade externa.

Todos Actros, Axor e Atego saem de fábrica com o Fleetboard, ferramenta de conectividade da Mercedes-Benz. O sistema transmite, além da posição GPS, dados telemáticos sobre o veículo e monitora o “estilo” de dirigir do motorista. Com isso, por exemplo, é possível efetuar diagnóstico remoto antes que uma falha evolua para modos mais graves e custosos para consertar, programar a manutenção preventiva com base em dados reais (Data Based Maintenance) e monitorar que a operação transcorra dentro de parâmetros que garantem economia, disponibilidade e segurança, como, por exemplo, excessos de velocidade, aceleração e manobras bruscas, respeito aos períodos de trabalho e descanso. Com isso a Mercedes-Benz informa que é possível reduzir até 15% dos custos operacionais e ainda aumentar o valor de revenda do veículo com base nos dados da sua vida pregressa.

O Brasil ainda engatinha quando falamos em estradas inteligentes, veículos inteligentes e profissionalismo da mão de obra, mas com a hiper-competitividade já instalada na indústria de transportes, a diferença de ganhos entre as empresas que abraçarem a tecnologia e as possibilidades de gestão que ela traz será suficiente para disparar novos ciclos de consolidação, com ganhos de produtividade que se refletem em toda a sociedade. Bem-vindo o futuro.