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Dá para entender?

Deve ter fábrica por aí torcendo para ser contemplada com a pior classificação no crash-test…

Há decisões tomadas pelas fábricas que surpreendem. Por manter em linha um modelo obsoleto, negar um problema óbvio de projeto ou não investir num novo segmento que virou febre do mercado.

Fiesta – A Ford acaba de lançar o novo (?) New Fiesta. Apesar de enfrentar dois concorrentes de peso que acabam de chegar (Argo e Polo), e de ter uma nova geração na Europa, a Ford manteve no Brasil o modelo antigo e ainda aumentou seu preço. Além de insistir no traumático câmbio Powershift, já substituído no Ecosport.

Ssangyong – Esta coreana começou mal por aqui: já desembarcou duas vezes no nosso mercado, desistiu e deixou 17 mil clientes desamparados. Seus carros se destacavam negativamente pela feiura do design, e positivamente por serem equipados com powertrain da Mercedes-Benz. A terceira tentativa acaba de ser anunciada pela empresa paulista Venko. Chega uma nova geração com design refeito e mais palatável. Mas perdeu a jóia da coroa, a mecânica Mercedes. Serão 3 SUV´s e uma picape, com motores gasolina e diesel. Nada muito moderno pois o 2.2 (gasolina) só oferece os mesmos 128 cv do 1.0 TSI da VW. A rede de concessionárias é modesta e a dúvida do mercado é se a Venko vai efetivamente apoiar os 17 mil orfãos das aventuras anteriores, ou somar a eles mais alguns milhares de clientes sem assistência.

Fiat  – A italiana, depois de liderar o mercado brasileiro, cortou investimentos em Betim e concentrou-os na construção da fábrica da Jeep em Pernambuco. O resultado não demorou: despencou para o terceiro lugar com uma obsoleta linha de modelos e só apresentou, em quase dez anos, o Mobi e a picape Toro (Jeep com o logo Fiat). Este ano, lançou finalmente o Argo, um hatch considerado o melhor automóvel já produzido em Betim, e lança sua versão sedã, o Cronos, no início de 2018. Outro resultado é que a empresa enfrenta na Justiça vários processos de seus concessionários, num valor superior a 5 bilhões de reais. Cobram devolução de impostos, excesso de vendas diretas e falta de modelos atualizados. Enquanto a rede Fiat vai mal, a Jeep vai muito bem obrigado…

Picapes – Além da coqueluxe das SUV´s, as picapes também vendem bem no Brasil. Que o diga a Fiat com Toro e Strada. Mas, além dela, só a VW com a Saveiro e a Renault Oroch. Ford abandonou o segmento há anos, GM mantem sua velha Montana e nem a Honda - que tem uma ótima picape nos EUA (Ridgeline) – animou-se a trazer uma concorrente para a Toyota Hilux.

Efeito contrário – Causa perplexidade a reação do mercado brasileiro quando se fala em segurança veicular. Dois compactos, Chevrolet  Onix e Ford  Ka, tomaram bomba no crash-test lateral, com nota zero na proteção de adultos. Resultado? Ambos reagiram com um pulo nas vendas…

Deve ter fábrica por aí torcendo para que seus modelos sejam também levados ao crash-test e contemplados com a pior classificação…

Defeitos crônicos – Alguns modelos da Mitsubishi, Land Rover e Volvo aborrecem e causam prejuízos ao proprietários mas as fábricas “preferem” desconhecer os problemas. Na japonesa, o câmbio CVT esquenta e o carro para. A fábrica oferece um resfriador (cooler), mas costuma cobrar para instalar o equipamento que corrige uma deficiência de projeto. Os utilitários ingleses tiveram dezenas de motores V-6 a diesel literalmente explodidos com enormes prejuízos para os donos. Este motor foi substituído e, agora, o que explode no Land Rover Evoque (2.0 turbo) é a turbina. O Volvo XC60 tem mesmo motor e sofre do mesmo mal. O sueco tem outro calcanhar de aquiles: a junta homocinética do XC 60 se desgasta prematuramente. A fábrica tem o desplante de culpar o dono. Será que só quem dirige este modelo da marca sueca não cuida bem do carro?

Utilitário esportivo na contra-mão da história

O mundo pede veiculos mais leves e aerodinâmicos. SUV é o contrário

O brasileiro tem vontades próprias e exclusivas: foi o único do mundo a cair de amores pelos automóveis de duas portas. Tinha na ponta da língua as desculpas (mais esfarrapadas) para desprezar os de quatro. Obrigou fábricantes a refazer os projetos de carroceria para produzir aqui alguns modelos pois no país de origem nem existia a versão cupê. E o ridículo: madame se contorcia para entrar no banco traseiro do Opala cupê com motorista…

Também sem explicação a corrida atrás de engate-bola, quebra-mato e outras bugigangas. Ou de carros preto e prata.

Com o utilitário esportivo (SUV) é diferente, pois não é moda exclusiva do brasileiro: é tendência também em outros países. Aqui, tem pelo menos uma justificativa razoável: mais adequado para sobreviver com integridade em nossas ruas e estradas com algum asfalto entre crateras. Argumento que só cola entre nós, pois norte-americano e europeu rodam em tapetes asfálticos.

Por ser mais elevado que o automóvel, o SUV oferece visibilidade um pouco maior e passa também uma sensação de segurança. Outra vantagem são suas rodas de grande diâmetro, capazes de passar ilesas por nossas crateras asfálticas. Em compensação, assusta o custo para a reposição dos pneus, maiores e fabricados com compostos especiais.

Mas, a rigor, está na contra-mão da história e no sentido inverso das exigências atuais da sociedade, que pede veículos mais eficientes, de menor consumo e emissões. A resposta deveria vir de automóveis mais leves e aerodinâmicos. O SUV, ao contrário, é mais pesado e menos aerodinâmico devido às suas generosas dimensões e maior altura do solo.

Quanto mais pesado um veículo, maior a potência que se exige do motor para movimentá-lo, com aumento no consumo de combutível e emissão de gases. Se pesa mais, exige também mais dos freios. E ainda o torna mais lerdo em arrancadas em retomadas de velocidade, tamanha a massa a ser deslocada.

SUV é alto, o que prejudica a aerodinâmica e aumenta ainda mais o consumo e emissões, principalmente em elevadas velocidades. E reduz a estabilidade, obrigando os engenheiros a recorrerem a uma pilha de equipamentos eletrônicos para “segurá-lo” nas curvas.

Suas dimensões complicam seu convivio no trânsito urbano: quanto mais largo e comprido, mais complicado para estacioná-lo. É quase impossível usar algumas vagas mais apertadas em estacionamentos de prédios e shopping centers. Ou faz o motorista suar a camisa para encostá-lo.

Finalmente, a grande capacidade do porta-malas poderia reforçar o placar a favor dos SUV´s, não fossem as peruas (station-wagons) que oferecem o bom comportamento dinâmico de um automóvel aliado ao mesmo (ou quase) volume para bagagens.

Moda não se discute. No Brasil, os utilitários esportivos já nocautearam as peruas e hatches médios. E deixaram sem opção o motorista que prefere um automóvel adequado para familias mas que seja estável e agradável de dirigir. Mas deixam felizes os fabricantes, que faturam (e lucram) muito mais, pois elevam o preço sem oferecer nada além de elevar também a suspensão. Tração 4x4  ou habilidade para o fora de estrada? Nem pensar. Às vezes contemplam o cliente com pneus de uso misto. E olhe lá…