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É tudo soda

Sheena Iyengar, professora na escola de negócios de Columbia, nos EUA, desenvolve um trabalho de pesquisa sobre como as pessoas realizam suas escolhas. Durante pesquisa realizada com pessoas que cresceram sob regimes socialistas/comunistas, ela fez uma curiosa descoberta. Ao receber os grupos, Sheena oferecia sete diferentes tipos ou marcas de refrigerantes, perguntando qual as pessoas desejavam. E repetidamente, ouvia “qualquer uma”, afinal era tudo soda. A percepção só mudou quando foram oferecidos água e suco além das sete sodas. Então as pessoas passaram a ver três opções: soda, água e suco.

Sheena percebeu a diferença entre quem cresceu debaixo de um regime socialista, sem opções e sem exposição ao marketing, e os norte-americanos, por exemplo, com sua devoção quase religiosa às marcas.

E ela concluiu: para nós, que estamos expostos a opções de escolha e propagandas associadas a essas opções, escolher uma marca tem mais a ver com quem nós somos do que com o que o produto é.

Essa reflexão me surgiu neste final de semana ao ver as capas das revistas semanais e as mídias sociais definindo de vez que todos os políticos e todos os partidos são iguais: é tudo soda!

A crise política que a cada dia se torna mais profunda está causando a destruição de marcas construídas ao longo dos últimos 30 anos. Partidos e políticos que laboriosamente elaboraram suas narrativas, estão se desfazendo diante da percepção popular de que é tudo soda. E isso é péssimo, pois se é tudo igual, o jeito é escolher o menos ruim.

Mas quem escolhe o menos ruim, continua escolhendo o ruim.

Moral da história: assim como fomos expostos às propagandas das sodas que consumimos, mas no final escolhemos aquelas cujo sabor mais apreciamos, fomos expostos às propagandas dos políticos e partidos e percebemos os que têm gosto ruim. E se concluímos que todos têm gosto ruim, tá na hora de mudar pra suco. Ou água.

Abra os olhos para novas narrativas, para novas propostas, para marcas que você nunca viu. Mas jamais se esqueça: o produto que você escolher tem mais a ver com quem você é do que com a marca em si.

A selhófrica da pleita

Terminou o julgamento da chapa Dilma-Temer, acusada de ter usado dinheiro sujo na campanha eleitoral de 2014. Resumidamente: após a derrota naquelas eleições, o PSDB abriu um processo contra a chapa vencedora, do PT-PMDB, acusando-a de crimes de abuso de poder econômico e político, recebimento de propina e questionando se houve algum benefício à campanha por conta do esquema de corrupção que atingiu a Petrobras.  Durante o processo de recolhimento de informações, que durou pouco mais de um ano, diversos membros da Odebrecht confirmaram o pagamento de caixa 2 e o relator Herman Benjamin determinou perícias e quebras de sigilo telefônico para construir seu parecer. Além disso, prestaram depoimentos três empresários de gráficas acusadas de receber dinheiro sem prestar serviços, executivos do grupo Odebrecht e o casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura.

No meio do caminho o PSDB percebeu que a coisa saiu do controle e quis abafar, trabalhando para que as contas da campanha fossem separadas entre Dilma e Temer na tentativa de isentar o atual presidente. Mas não colou.

O Ministro Herman Benjamin, relator do processo, produziu um relatório cristalino, arrasador, repleto de provas, e-mails e depoimentos, deixando claro que sim, houve propina na campanha. Sim, teve dinheiro pago no exterior. Sim, é assim desde sempre.

E fomos ao julgamento.  A maioria dos ministros do TSE excluiu as provas de caixa 2 da Odebrecht no financiamento da campanha presidencial e, por 4 votos a 3, absolveu tanto Dilma quanto Temer.

O relatório de Herman é cristalino, mas não vale. A justificativa é que a selhófica da pleita se lhefregou na lúgria. Sim, houve propina na campanha. Sim, teve dinheiro pago no exterior. Sim, é assim desde sempre. Mas a selhófica da pleita se lhefregou na lúgria.

Eu inventei a selhófrica da pleita e o lhefregar na lúgria num momento de suprema angústia, enquanto eu ouvia e não entendia nada do malabarismo retórico dos ministros tentando justificar o injustificável, torcendo a interpretação das leis e esfregando em nossa cara, os leigos, nossa ignorância. Veneráveis senhores, no ápice de suas carreiras, tratados como excelências guardiãs da honra e da justiça, tentando nos provar que azul é verde, fogo molha e frio esquenta.

Uma vez classifiquei esses absurdos como nonsense semântico. Nonsense é uma expressão que vem do inglês, que quer dizer algo sem sentido, sem nexo. Semântica é o estudo do significado, a arte da significação. Nonsense semântico é, portanto, algo como uma antonímia, um confronto de antônimos, uma verdade que quer dizer mentira, entendeu?

Mas neste caso é mais que simplesmente antônimos se anulando. É a selhófica da pleita que se lhefregou na lúgria, absolutamente ininteligível.

E se você não entendeu, tá perfeito, bem-vindo, bem-vinda ao Brasil.

O resultado desse julgamento é um balde de água fria em quem vislumbrava um movimento para colocar o país nos trilhos da justiça.

Não, com essa elite que aí está, não vai.

Terminei de assistir ao julgamento com uma famosa frase de Marx, o Groucho, na lembrança:

“Você prefere acreditar em mim ou em seus próprios olhos?”

Que dó de nós.