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A selhófrica da pleita

Terminou o julgamento da chapa Dilma-Temer, acusada de ter usado dinheiro sujo na campanha eleitoral de 2014. Resumidamente: após a derrota naquelas eleições, o PSDB abriu um processo contra a chapa vencedora, do PT-PMDB, acusando-a de crimes de abuso de poder econômico e político, recebimento de propina e questionando se houve algum benefício à campanha por conta do esquema de corrupção que atingiu a Petrobras.  Durante o processo de recolhimento de informações, que durou pouco mais de um ano, diversos membros da Odebrecht confirmaram o pagamento de caixa 2 e o relator Herman Benjamin determinou perícias e quebras de sigilo telefônico para construir seu parecer. Além disso, prestaram depoimentos três empresários de gráficas acusadas de receber dinheiro sem prestar serviços, executivos do grupo Odebrecht e o casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura.

No meio do caminho o PSDB percebeu que a coisa saiu do controle e quis abafar, trabalhando para que as contas da campanha fossem separadas entre Dilma e Temer na tentativa de isentar o atual presidente. Mas não colou.

O Ministro Herman Benjamin, relator do processo, produziu um relatório cristalino, arrasador, repleto de provas, e-mails e depoimentos, deixando claro que sim, houve propina na campanha. Sim, teve dinheiro pago no exterior. Sim, é assim desde sempre.

E fomos ao julgamento.  A maioria dos ministros do TSE excluiu as provas de caixa 2 da Odebrecht no financiamento da campanha presidencial e, por 4 votos a 3, absolveu tanto Dilma quanto Temer.

O relatório de Herman é cristalino, mas não vale. A justificativa é que a selhófica da pleita se lhefregou na lúgria. Sim, houve propina na campanha. Sim, teve dinheiro pago no exterior. Sim, é assim desde sempre. Mas a selhófica da pleita se lhefregou na lúgria.

Eu inventei a selhófrica da pleita e o lhefregar na lúgria num momento de suprema angústia, enquanto eu ouvia e não entendia nada do malabarismo retórico dos ministros tentando justificar o injustificável, torcendo a interpretação das leis e esfregando em nossa cara, os leigos, nossa ignorância. Veneráveis senhores, no ápice de suas carreiras, tratados como excelências guardiãs da honra e da justiça, tentando nos provar que azul é verde, fogo molha e frio esquenta.

Uma vez classifiquei esses absurdos como nonsense semântico. Nonsense é uma expressão que vem do inglês, que quer dizer algo sem sentido, sem nexo. Semântica é o estudo do significado, a arte da significação. Nonsense semântico é, portanto, algo como uma antonímia, um confronto de antônimos, uma verdade que quer dizer mentira, entendeu?

Mas neste caso é mais que simplesmente antônimos se anulando. É a selhófica da pleita que se lhefregou na lúgria, absolutamente ininteligível.

E se você não entendeu, tá perfeito, bem-vindo, bem-vinda ao Brasil.

O resultado desse julgamento é um balde de água fria em quem vislumbrava um movimento para colocar o país nos trilhos da justiça.

Não, com essa elite que aí está, não vai.

Terminei de assistir ao julgamento com uma famosa frase de Marx, o Groucho, na lembrança:

“Você prefere acreditar em mim ou em seus próprios olhos?”

Que dó de nós.